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sábado, 23 de abril de 2016

Ironman South African Championship 2016 - Relato de prova - Parte 1

Eis que surgi para tirar a poeira do blog....

Deixei totalmente de lado, motivos infinitos. Mas senti saudades porque é muito bom ler e relembrar o que passou...

Sem mais demora, vou aproveitar o retorno de viagem e contar um pouco da experiência que tive ao participar do Standard Bank Ironman South African Championship 2016.

A idéia de fazer um Ironman fora do país surgiu ao voltar da maratona de Chicago, em novembro do ano passado. Já tinha resolvido que não iria para Florianópolis, mas queria fazer um Iron distance no primeiro semestre de 2016. Ao estudar as provas, vimos que o período era bom, o preço da inscrição e da viagem pesou também e então decidimos: o segundo Ironman seria dia 10/04/2016!

Inscrição feita, tudo planejado, veio a parte melhor e mais sofrida... O ciclo de treinos!!! A parte ruim de treinar para uma prova em Abril: não teve folga nas festas de final de ano! Dieta e treinos sem chance para o panetone e a preguiça... No entanto, achei esse ciclo mais tranquilo do que o primeiro iron ano passado. Não temos mais as inseguranças de completar os pedais e corridas longas... A preocupação era outra, com a performance. Mas aí é cumprir o que mandam os treinadores, a nutrição e ver que resultado teremos no final... O cansaço sempre chega nos dois últimos meses, mas senti que administrei bem melhor.

As semanas voam e quando vi, o dia de arrumar tudo chegou. Geralmente já começo a ver tudo 15 dias antes. O checklist de um Ironman é bem grande e, em se tratando de fazer a prova em outro continente, a atenção tinha que ser redobrada para não esquecer nada. Revisão da bike, equipamentos, nutrição...
Pouco mudou em relação ao que fiz para Florianópolis, apenas alguns detalhes de nutrição. Levei tudo daqui, tudo industrializado, não quis correr o risco de precisar de algum alimento e não encontrar, ou mesmo comer na prova algo que não usei nos treinos (erro que nunca devemos cometer)...

Embarque feito, aquela apreensão de quem nunca viajou com a bike para fora do país... Quase tudo certo com o despache de malas, só o imprevisto de não poder despachar o cartucho de CO2 que levamos para troca de câmaras em caso de pneu furado. Eu estava levando quatro e sabia que não podia na mala de mão, mas já tinha despachado sem problemas outras vezes... A companhia aérea barrou, a sorte que um atendente nos avisou que estavam tendo problemas com outras pessoas que precisaram descer do avião para retirar o CO2 da mala e acabaram até perdendo vôo...

A prova acontece todo ano em Port Elizabeth, cidade litorânea que fica bem no sul da África do Sul. Não há vôos diretos para lá, só temos um vôo diário para Johanesburgo. De lá, mais 2 horas até Port Elizabeth. A viagem foi bem tranquila e a bike chegou intacta no destino (ufa!!!!).

Port Elizabeth é uma graça, principalmente a parte que ficamos, local da prova - Hobie Beach. Logo de imediato, já fomos recebidos com um dos males previstos: o vento. O vento em Port Elizabeth costuma variar muito, mas raras vezes é menos do que 20km/h, podendo chegar facilmente perto dos 40km/h. Quem pedala sabe o terror que é isso! Há uma máxima dos locais que diz: West is best, East is beast... Ou seja, vento vindo do oeste é melhor. O vento leste é o temor de quem faz a prova: se sopra forte, as rajadas de vento cruzadas jogam a bike como pipa. Vou confessar que o vento, que estava 30km/h leste quando chegamos, me assustou. O mar então, nem vou comentar!!! Estava muito mexido. Mas ainda era quinta-feira e muita coisa podia mudar...

Local da largada da prova... e o vento!!!


Chegamos e nem deixamos o fuso horário de 5 horas a mais nos jogar na cama: fomos direto para a Expo que ficava num hotel a 1,5km do nosso. Já ficava claro que o clima de Ironman estava em tudo no bairro: atletas chegando, banners e sinais de atletas em treinamento, aquela coisa boa que esperamos tanto para viver! A semana de prova é sempre uma delícia e passa muito rápido!

Por comparação com a Expo do Ironman Brasil, a do Ironman South Africa é muito maior e num local bem melhor. Fica no centro de convenções do hotel principal da praia, The Boardwalk. Muitas lojinhas com uma variedade muito boa de produtos, loja da Merrel (marca que comercializa os produtos da franquia na África do Sul) bem completa, com muitos itens... O preço é semelhante aos do Brasil, já que a moeda deles é desvalorizada como a nossa. No geral, os preços de hotel e restaurantes são equivalentes ou menores do que aqui, então dói menos o bolso do que uma prova na Europa ou EUA.

O local de retirada dos kits ficava numa ala separada das lojas e ali vimos a organização; tudo era segmentado: pagamento da taxa diária da federação nacional de triathlon (obrigatório em provas no exterior), escaneamento do cartão de crédito para despesas médicas eventuais (internação ou atendimento hospitalar durante a prova - também obrigatório para estrangeiros), cadastro biométrico e fotográfico, retirada da mochila (sim! Uma mochila linda - todos os atletas ganharam - porque no Brasil não tem??) e das sacolas, número de peito e chip. Por fim, retirada das sacolas special needs (que aqui não são devolvidas no final - tudo que colocar nelas é descartado) e foto impressa no stand da Standard Bank - brinde para todos que queriam tirar. Tudo rápido! Espaço enorme, sem confusão.




Entrada da Expo...

Local de retirada dos kits, muito amplo e organizado!

Campanha contra a prática do vácuo - todos os atletas receberam um adesivo "I'm true" e puderam assinar o compromisso de fazer uma prova limpa!

Kit nas costas - felicidade imensa!!!

Tem como ser ruim fazer a prova num lugar assim???

Nesse dia, optamos por cumprir os treinos da planilha no próprio hotel em função do vento e do anoitecer. Acordamos no dia seguinte bem cedo e montamos as bikes. Hora de sair para dar um giro e reconhecer o percurso!

Trecho do ciclismo da prova - visual fantástico e as famosas plaquinhas alertando os motoristas
 Foi ali, naquele dia, que caiu a ficha do que estava acontecendo. Ali a emoção foi grande, só não maior do que a gratidão por poder viver tudo aquilo, naquele lugar lindo, fazendo o que gosto e competindo numa prova tão linda como o Ironman. Não consigo descrever muito bem o que senti nesses dias pré-prova, mas foi um sentimento muito, muito bom. Um calor na alma sabe? Daqueles que a gente sente em momentos especiais na vida!

À tarde, ainda faltava a natação. Tentamos entrar no mar em frente ao hotel, mas ali já dava pra perceber como funcionava: o vento entrava mais no fim da manhã e no início da tarde, aumentando a partir daí. Com isso o mar que no início do dia era mais calmo ficava bem mexido e até perigoso. Optamos por sair do mar e procurar uma piscina. Pesquisando na internet achei uma piscina coberta de 50m, fomos até lá de carro. Só não imaginava que ao chegar veria isso:

Uma piscina coberta aquecida de 50m só para nós. Pública. Entrada? 10 reais.
Choquei com a piscina do Newton Park. Pena que o treino era de 1500m, porque minha vontade era ficar ali pra sempre. Levar meu treinador do Brasil e ficar por ali mesmo treinando! (risos).

Na volta, mais uma corrida rápida na orla e fomos para o congresso técnico + jantar de massas. Mais uma vez a estrutura era de dar inveja para o padrão que estamos acostumados. Um salão de baile enorme e quatro buffets de massa muito bem servidos nos esperavam. O local do congresso é o mesmo da rolagem de vagas para Kona e premiação (que é feita num jantar especial gratuito para os atletas que ficam nas 3 primeiras posições em cada faixa etária e um acompanhante). É lindo, decorado, com um palco e telões.

Carbo load mode on!

Congresso técnico
No congresso técnico mais uma vez ficou evidente a organização dos caras por lá. Tudo é muito bem explicado e algumas coisas são bem especiais desse evento. O descarte de lixo é tratado com muita seriedade. Tanto que normalmente descartar lixo fora dos postos é punido com cartão azul, mas aqui é desqualificação na hora. Andar fora ou ultrapassar usando a outra pista (uma vez que a pista não tem mureta divisória e a ida e volta do ciclismo eram feitas na mesma estrada), desqualificação. Eles fazem questão de explicar muito muito bem tudo o que está no manual e salientar tudo o que devemos seguir para a prova ser tranquila para todos.

Assim, voando, chegou o sábado. Dia do treino oficial de natação. Mais cedo do que na sexta entramos no mar para fazer o treino. Comparando com o que estava o mar em Jurerê no iron ano passado, o mar aberto de Hobie Beach é bem mais agitado. Nada que coloque medo, mas aquela marola que irrita e enjoa um pouco. Mas a temperatura, que pode ser bem baixa, não estava nada diferente do que é a de Jurerê. Também pudera, o calor chegou forte e já dava um aperitivo do que seria o domingo!!!!

Ainda pela manhã, como ocorre na maior parte dos campeonatos continentais (o Ironman aqui também é um Championship do continente africano, assim como Floripa é o Latino-americano), os atletas que conquistaram a classificação do All World Athlete (AWA, programa da franquia do Ironman que seria como uma pontuação privilegiando fidelidade e performance) no ano anterior nas categorias prata e ouro são convidados para um Brunch onde convidados especiais fazem palestras. Foi muito bacana poder conhecer a Paula Newby-Fraser, campeã em Kona 8 vezes, coach do Ironman U que ouvi tanto no curso que fiz, e ouvir mais uma vez o que ela tinha a dizer um dia antes da nossa prova. Dela ouvi as frases que viriam na minha cabeça muuuuuitas vezes na prova: "Nunca comece uma prova de Ironman forte, comece num ritmo fácil. Se você achar fácil depois de algum tempo, sempre pode ir um pouco mais forte. Mas se começar forte e tiver que reduzir, a tragédia já começou e serão longos 42 km no final. Não há nada como a sensação de correr bem os últimos 10km de um Ironman!"

AWA Brunch - e o tanto que é legal ver o nome no telão? 

De lá para o hotel. Último giro de bike feito, hora do check-in de bike e sacolas. Achei o check-in bem parecido com as provas da franquia no Brasil. Não pegamos filas, foi tudo rápido e tranquilo. Só que lá não se pode cobrir a bike. Deu dó de deixar a coitadinha no sereno (risos), mas paciência, regras são regras... Dia lindo, nenhuma nuvem no céu, um calor daqueles.

Aproveitando um pouco da beleza desse lugar, não tem como ficar feia na foto!!!

Check-in feito!

Sacolas da T2 e o Oceano Índico nervosinho de Hobie Beach ao fundo!


Estava tudo pronto para meu segundo Iron!!!!!!!

Continua...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

TriHard Caiobá 70.3 - Relato de prova

Antes tarde do que mais tarde...
Após quase um mês de ausência, venho para postar o relato da minha principal prova nesse ciclo de treinos para o Ironman Florianópolis: o TriHard Caiobá.

A prova, anteriormente Long Distance, mudou este ano de organização e um pouco no seu percurso.
O ciclismo que sabidamente era menor do que 90 km, agora realmente tem a metragem correta. Já a corrida teve um pouco menos, mas a organização da prova no geral foi excelente.

Foi minha primeira visita a Caiobá. A cidade realmente é propícia para a prática do triathlon e há incentivo, isso me deixou muito surpresa. A praça onde fizemos nossa transição foi especialmente reformada para as provas que ocorrem lá.

Caiobá me surpreendeu... Vista do hotel, linda!!
O kit da prova foi bom. O normal, tatuagem, numeral de peito, touca, camiseta, número de bike, chips. Nenhum atropelo na entrega. Congresso técnico um pouco lotado demais, local pequeno, mas deixou tudo explicado.

Foi a primeira vez que fiz a desmontagem e montagem da bike sozinha. Um teste para Florianópolis. Na minha última viagem comprei a case Helium da Biknd por indicação de amigos e devo dizer que não me arrependo. A montagem é fácil e a colocação e transporte é muito tranquila. A primeira vez tive um pouco de dúvida e receio, mas quando fui montar novamente e desmontar foi muito mais fácil!!!

Mala bike fechada. Funcionou muito bem!!!
Confesso que cheguei no dia da prova um pouco insegura. Não fiz o Ironman 70.3 Brasília porque queria uma prova menor e mais tranquila para realmente treinar minhas transições e meu ritmo de prova para Florianópolis. Porém, com tantos treinos, o cansaço se acumula. Nem sempre você rende bem durante a semana e fica aquela dúvida: será que estou preparada?

E assim foi meu clima para a largada. Focar em cada passo, fazer uma prova pensada. Calculada.

Concentrada antes da largada. Foto: www.offshot.com.br


As condições da natação foram excelentes. Mar piscina, temperatura perfeita. Esperava até um pouco mais do meu tempo. Mas foi bom ter tido a coragem de largar no meio de todo mundo e enfrentar o bate bate de todo início de prova.

Na T1, o erro que nunca tinha cometido e que me custou alguns segundos: não deixei a sapatilha aberta para calçar na bike. Estava com o velcro fechado!!!! Esquecimento puro. Não pode mais ocorrer. Enfim, abri e calcei ali na linha de monte mesmo.

Foto: www.offshot.com.br


O percurso da bike também é excelente. Asfalto limpo, praticamente plano. Apesar de estar me sentindo forte, foquei na cadência e tentei manter em torno de 90rpm, onde me sinto melhor para correr depois. Não tenho medidor de potência, então este foi meu parâmetro. Tudo encaixou muito bem, hidratação, alimentação e posição na bike. Um único porém nos postos de hidratação desta parte: eram 3 voltas e só havia um posto no retorno lá no fim do percurso. Achei muito pouco. Ou você pegava isotônico ou água. E aí tinha que esperar mais uma volta para poder pegar outra garrafa... Minha sugestão é colocar outro posto na outra ponta do retorno.

A fiscalização tentou ser justa. Acho que nunca se consegue punir a todos corretamente, muitos vaqueiros não serão punidos e outros tantos fazendo prova honesta serão. Mas os juízes estavam atentos.

Minha T2 foi talvez minha melhor até hoje em provas. Vim nos últimos km da bike mentalizando tudo o que devia fazer, já que no Challenge ano passado perdi muito tempo. E fiz tudo muito rápido. Tão rápido que na hora de colocar tudo nos bolsos escapou um dos meus estojinhos de cápsulas de sal. Tudo bem, eu tinha outro que levei da bike. Sou a noiada da hidratação, alimentação e afins. Em prova longa, sempre levo extra de tudo!

Enfim, a corrida. Estava muito preocupada com meus treinos de corrida no ciclo. Parecia que as pernas sempre pesavam uma tonelada cada, e o pace se arrastava nos treinos. Mas confio demais no coach. E foi a hora de mostrar que a cabeça esta pronta e se as pernas estiverem um pouco mais descansadas, tudo vai fluir bem. Fiz uma ótima corrida para meus padrões. Sem quebra, sem pensar em parar, mantendo muito constante meu ritmo. Terminei a prova com meu melhor tempo em 70.3, muito, mas muito melhor do que em Brasília ano passado. Foi a injeção de ânimo e confiança que faltava para completar o ciclo de treinos puxado, cansativo, mas que estou curtindo muito.

Segundo lugar na Categoria!!!
E veio até pódio na categoria. Um segundo lugar no age group e oitavo feminino geral. Muito, mas muito feliz mesmo.





E agora segue o baile... 4 semanas para a largada de um sonho!!!!!!!!

quinta-feira, 5 de março de 2015

El Cruce Columbia - Parte 3 - Etapa 2 da Prova

Vamos lá para mais um dia de El Cruce...


Acordamos ainda sem o sol lá fora para podermos arrumar todas as coisas e levantar nosso acampamento...
O dia prometia ser mais frio do que na primeira etapa, de modo que optei por colocar um manguito. Não sou de sentir muito frio em prova, mas sabia que tinha casacos e proteção suficiente na mochila caso esfriasse.

Como no dia anterior tinha feito sol e calor, tivemos a sorte de poder lavar e secar nosso único par de tênis de trilha. Lógico que a recomendação era ter mais de um, mas né? Não somos fábrica de dinheiro, os tênis são caros e principalmente não usamos rotineiramente já que praticamos triathlon, então resolvemos nos virar com um par só. Não ia ser muito legal se tivesse chovido, já que já íamos largar com os tênis molhados.

A largada do segundo dia era também em ondas, com base na sua colocação do dia anterior. Ficamos na segunda onda de largada às 8:15.

Se eu já demoro para me arrumar para longos e provas de corrida e triathlon quando estou no conforto da casa ou hotel, pode-se imaginar que demorei mais ainda para fazer o mesmo numa barraca minúscula né? kkkkkkkk  Sou daquelas que tem que fazer tudo certinho, com calma, para não esquecer nada... E por pouco conseguimos arrumar tudo antes da nossa largada. Ufa! Malas entregues, tudo pronto, vamos para mais um dia!

Altimetria Etapa 2


O segundo dia da prova esse ano era o mais esperado por mim. Eu havia visto as paisagens por onde iríamos passar e sabia que seria o dia mais lindo! Primeiro subiríamos uma montanha e de lá poderíamos ver a Laguna Llum, um lago de degelo que fica entre duas montanhas... Logo depois, mais adiante, poderíamos ter a vista de outro lago onde fica a Isla Corazon, uma ilha em formato de coração (óin!!). Além de poder ver o Tronador, embaixo do qual acamparíamos na chegada.

Essa etapa também colocava um desafio mental: seria minha segunda vez fazendo uma distância de maratona. Um pouco mais de 42km mais uma vez, só que desta vez com subidas e descidas, muito mais demorado e ainda com as pernas cansadas do dia anterior.

Logo no início já percebemos que a etapa ia fluir melhor, com mais trechos onde poderíamos de fato correr. Depois de uns 4 a 5 km a trilha que no início era aberta fechava em um trecho interminável de single track no meio de algo parecido com uma floresta. Era um sem fim de mato, sobe, desce, e o percurso travou, já que ficava mais difícil ultrapassar... Nas poucas oportunidades fomos passando algumas duplas e isso era animador, sinal de que estávamos mais inteiros do que muita gente... Mas, um pouco adiante, minha primeira queda na prova: fui toda feliz desviar de um curso d'água por um tronco solto e fui direto pro chão de pedrinhas... Bela ralada no joelho, mas nada além disso. Detalhe: cinco minutos depois tive que cruzar um rio e molhei os dois pés de qualquer jeito!!! Hahahahahahaha

Primeiros kms... Um friozinho bom e só alegria!!!


Após umas 2 horas e pouco de prova, chegamos ao primeiro ponto esperado do dia: a Laguna Llum. Lindo, único momento. Impossível não parar para contemplar e pensar mais uma vez no quão privilegiada eu era por estar ali naquele momento. 

Dá pra entender? Que lugar...


Mais alguns quilômetros e chegamos no local mais lindo da prova na minha opinião. Não sei dizer o que senti quando vi essa paisagem. Era indescritível. Muita coisa linda num lugar só... Ali estava a Isla Corazon de um lado, e o Cerro Tronador de outro. Um dia de sol, lindo. E a gente ali. Incrível!!!!

Considero este o lugar mais lindo da prova. De um lado, Isla Corazon. De outro, lá no fundo, Cerro Tronador (com neve). Ainda faltava chegar lá no pé dele...


Seguimos em frente porque o dia ainda era longo e tinha mais da metade de prova pela frente. A metade mais monótona. Mais difícil. Começou com mais uma descida judiando das pernas, em caracol, íngreme. Menos técnica do que a do dia anterior. Mas com as pernas cansadas, era fácil tropeçar em alguma raiz solta e pronto, festival de gente caindo. 
E não demora muito torci meu tornozelo pela primeira vez. Nada grave.

Entramos então em um terreno aberto, na beira do Rio Manso. Ali seguiríamos por uns 15 ou 17 km, até a chegada no Camp 2. Hora de recuperar o pace e correr! Finalmente, correr por muitos km, sem galhos, morros, descidas ou pedras atrapalhando. Apenas cruzar algumas vezes o Rio, uma delas com água acima dos joelhos.

Nesse trecho da prova senti algo que nunca tinha sentido enquanto corredora... Lembro de ler uma vez no livro "Do que eu falo quando falo de Corrida", do fantástico Murakami, o relato dele durante uma de suas ultramaratonas de como sua cabeça chegou num estado onde ele não sentia nada. Só queria correr, só pensava em colocar um pé na frente do outro. E nesse dia, eu senti exatamente isso, naquele momento. Do km 28 até a chegada no km 42,5, minha cabeça ficou "limpa". Eu não conseguia pensar em nada. Entrei numa espécie de transe onde não tinha cansaço, dor, nada. Nem vontade de chegar eu tinha. Eu só pensava que não podia parar de correr. Não sei quantas duplas passamos nesse trecho, mas a maioria estava caminhando. Eu podia jurar antes de largar que eu também estaria caminhando no km 38. Nunca pensei que meu limite podia chegar nesse ponto.

De repente, uma curva e a chegada. Simples assim, sem aplausos, sem glamour nenhum. Mas foi a chegada mais emocionante da minha vida. Um marco por assim dizer. Depois de 7 horas e 17 minutos correndo, eu completava a minha segunda maratona.

A chegada desta etapa tão sofrida e tão linda. Assim, sem público, no meio das montanhas entre Chile e Argentina. Na companhia que eu mais podia desejar!!!!


Cheguei e só queria chorar, mas não conseguia nem soltar o choro. Eu ainda não acreditava que tinha feito aquilo depois de correr 26km no dia anterior. Sei que para muitos é pequeno, mas para mim era algo que nunca imaginei fazer. Eu realmente tinha medo de não completar o El Cruce quando cheguei. Agora eu sentia que completaria com um sorriso no rosto. Estava cansada, mas inteira.

Hora da massagem, comida, tentativa e falha de banho no rio mais gelado que já tive contato, e mais uma vez arrumar tudo para o dia seguinte antes do dia virar noite. Tudo com essa vista:


Nosso quarto de hotel... hahaha pequeno, apertado e uma zona, mas com uma vista que não se encontra em todo lugar...

Fui dormir com o choro engasgado ainda, com as lágrimas insistindo em cair em prestações. Nunca vou esquecer aquele transe, aquele momento onde eu esqueci todo o cansaço, dor, peso e só corri. Só isso já tinha valido a viagem para mim.

Continua...


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

El Cruce Columbia - Parte 2 - Etapa 1 de Prova

Chegou o dia da largada!!!!

Tudo pronto, malas fechadas, mochila nas costas, café da manhã bem reforçado e seguimos para a praça de Cerro Catedral, local da largada.

A largada do El Cruce é feita em ondas por horário. Isso é feito para evitar um pouco as filas que se formam nos trechos de trilha mais estreita, que são quase que maioria durante a prova. No primeiro dia nossa largada foi definida pelo número de peito, e largamos na terceira onda.

A organização costuma checar pelo menos um dos equipamentos obrigatórios que precisamos levar. Neste dia todos deviam mostrar o corta-vento, já que nos avisaram que lá no alto da montanha os ventos estavam fortes, apesar do dia de sol e calor. Tudo checado, formamos grupos de 3 duplas para a largada na rampa. Muita festa e emoção nessa hora. Como no dia anterior, após a foto e largada oficial, já subimos pelo teleférico ao ponto onde o tempo realmente começava a contar.

Altimetria da Etapa 1
Chegando a hora!!!!! 




Subindo... por enquanto só sorrisos!! 
E começou a brincadeira!!


E assim começou a primeira etapa. Uma subida dura e beeeem longa, onde só se progredia andando. Quando a subida apertou, ja tirei os bastões de trekking das costas e resolvi usar. Os bastões não são obrigatórios. Vai de cada um treinar com eles e optar pelo uso ou não. Optamos por usar, já que eles aliviavam a força que era necessária nas pernas na subida. Os braços ajudavam como uma alavanca para subir. Nesse ponto aviso aos que querem fazer prova: treinem com os bastões!!!! Em alguns momentos, tive que desviar dos bastões de corredores à frente que insistiam em querer me acertar (risos)...

Quando você pensava que terminou, mais subida!!! Mas olha esse trajeto e a vista... Igualzinho correr em Sampa né? Rs

Ao chegar quase no topo da subida, uma surpresa de arrepiar esperava os corredores... Dois músicos, com violão e violino, tocando no alto do Cerro. Hora de contemplar esse momento único e emocionante... O Cruce é assim, diferente!!!

Infelizmente os vídeos da GoPro ficaram com um volume super baixo pois usamos a caixa estanque... Errinho básico, devíamos ter usado a estanque mas com tela touch, que deixa passar o som! Mas dá para ter uma idéia...



Alto do Cerro Catedral! Depois de muita pedra, subida, areia... E aí, não compensa?


E como tudo que sobe, desce... Veio a descida. Aí você pensa, que bom, vai aliviar. Engano forte. Esta primeira etapa, apesar de menor em distância e acúmulo de altitude, era a mais técnica e difícil. A descida só veio provar! Um paredão de pedras muito inclinado, onde nós debutantes da montanha descíamos rezando agarrados na pedra. Já os treinados iam nos passando, deixando aquela pergunta: "como eles fazem isso??"hahahahahaha.

Passada a descida, um trecho de mata mais fechada em direção ao lago onde acamparíamos. Trilha estreita e interminável... Em alguns momentos abria a mata e podíamos ver o acampamento. Tão perto mas loooonge.... Ainda tinha muito lago pra contornar. O cansaço vinha e a comida já não descia tão bem após 3 ou 4 horas de prova.

Mas vai... Caminha, corre, pula tronco, caminha, cruza arroio, barro, pedra, sobe, desce e chegamos na praia!! O tempo? Não foi dos melhores nem dos piores. Mediano. Mas pouco importava. O que mais importava era ter cruzado o tapete depois de tantas horas!!!!



O cenário compensa tudo!!! O camping 1 era lindo. A vista do lago, o dia lindo! Após a chegada, pegamos as malas do acampamento e seguimos para a nossa barraca. Já aprontamos tudo para a noite (colchão, saco de dormir) e fomos aproveitar o calor para entrar no lago gelado! Já que o sol estava forte, lavamos nossas roupas e tênis e deixamos para secar. A temperatura do lago era ideal para recuperar a musculatura e a maioria dos corredores entrou na água, apesar de estar gelada.

Camp 1 - Los Vaqueanos - Ao lado da chegada!


Hora de almoçar. A comida no El Cruce tem um cardápio que não muda: churrasco, salada, pão e massa. Tudo servido sem parar no almoço emendando com jantar, já que os corredores continuam chegando... Não falta comida. Não espere nada gourmet, mas fome não se passa!

Alimentados, era hora de deitar um pouco no sol, esticar as pernas para depois arrumar tuuuudo pro dia seguinte. A dica era deixar tudo pronto antes de anoitecer, já que não há luz no acampamento e tudo é na base da lanterna. 21h já esteja jantado e pronto para dormir! E tudo que faz de calor num dia de sol, esfria à noite. Não é exagero estar preparado para temperaturas que podem ser negativas. Nesse dia o frio estava bem suportável e o saco de dormir era até um pouco quente demais.

Anoitecer no Camp 1 e o quarto 5 estrelas


Antes de dormir, a organização passou um vídeo de nossa prova da primeira etapa. Achei muito bacana. Aliás, o camping é um perrengue, mas também um lugar que parece fora da nossa realidade. Nada de celular, luz, conforto, mas é meio que surreal ver tanta gente do mundo todo interagindo!!! Todas as idades, tipos físicos, mas todos cansados e felizes! É um lugar bom para desconectar da correria e compartilhar experiências do dia!

E então, já era hora de dormir! Tomei mais um banho de lenços umedecidos (sabonete e shampoo? nada! não se pode usar no lago...), escovei os dentes com uma canequinha e coloquei meu tampão de ouvido. Antes de vir, tive medo de não conseguir dormir pelo barulho de bichos e medo (kkkkk), mas o que mais incomoda mesmo é o barulho dos vizinhos, já que barraca não é parede de concreto e tudo se escuta!!!

Muito ainda nos esperava pela frente e o cansaço só ia piorar!!! Mas agora, era só esperar o amanhecer do dia 2...

(continua)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

El Cruce Columbia 2015 - Parte 1 (Pré-prova)

Bom dia!!!!

Começo nesse post a contar um pouco do que foi a experiência do El Cruce 2015... Quero mais para frente colocar dicas para quem deseja realizar essa prova, mas acho que o relato em si já deve ajudar pelo menos a ter mais uma idéia para tomar a decisão de fazer ou não a prova!



Mas para começar, o que é o El Cruce?
É uma corrida de aventura que em 2015 completou sua 14ª edição. A idéia da corrida é unir Argentina e Chile em um percurso de aproximadamente 100km que muda a cada edição. A prova é tradicionalmente realizada em duplas, porém nos últimos anos começou a oferecer também a modalidade solo. Sempre realizada no verão, o que não significa necessariamente calor já que o clima da Patagônia é um dos mais instáveis do mundo. Sendo assim, deve-se estar preparado para enfrentar calor, frio, chuva, ventos em terrenos que variam muito (neve, rochas, barro, rios...).
Entre os dias de prova, os participantes ficam em acampamentos montados pela organização (no início da prova, os próprios participantes montavam suas barracas...). No acampamento a estrutura é limitada e não há banheiros nem duchas. Somente banheiros químicos e banho, só no rio ou lago e mesmo assim sem usar produtos de higiene para não poluir o local.

Acampamento do El Cruce... O que o quarto tem de ruim, a vista tem de espetacular!!!


Resolvemos participar do El Cruce ano passado, antes de abrirem as inscrições. Fomos com o intuito de completar a prova e evitar ao máximo lesões, pois o objetivo principal do semestre era o Ironman Florianópolis em Maio. Sem pretensões de tempo, já que a montanha não é a nossa especialidade, longe disso. Como triatleta e corredora de rua, minha experiência em montanha se restringia a um trecho do Volta a Ilha em 2013 e uma trilha do Pai Zé no pico do Jaraguá feita duas semanas antes. A idéia era simplesmente viver a experiência. 

E assim, com aval do coach, seguimos para Bariloche na quarta-feira dia 04/02... A largada da prova é separada, solo largava dia 05 e nós que faríamos dupla largaríamos dia 06. Ao chegar em Bariloche já pegamos o táxi direto para Vila Catedral, uma vila no pé do Cerro Catedral que é a estação de esqui de Bariloche e local de largada da prova. Hora de pegar o kit da prova que já é famoso por ser super completo:


O Kit da prova... Super completo! Teve camiseta, primeira pele, polar, corta-vento, buff, cobertor de emergência, prato, copo térmico, porta-gel, meia de compressão, pilhas pra lanterna e até protetor solar!


Até aí tudo muito organizado e rápido. De lá, acompanhamos mais um pouco o movimento de corredores na vila. Os corredores solo já estavam entregando as malas do acampamento (você entrega a mala com as coisas que usará no acampamento um dia antes e fica somente com sua roupa de prova e mochila que irá correr...). Fora os corredores a vila parecia fantasma. Muito ruim em estrutura pois a alta temporada é no inverno, então foi grande a dificuldade para conseguir um local para jantar e comprar água. Mas conseguimos nos acertar. 

No dia seguinte fomos para a praça acompanhar a largada solo. Aí já deu para ver porque o El Cruce é tão único e diferente. A largada é por grupos e horários distintos, no primeiro dia divididos aleatoriamente por número de peito. Tradicionalmente os corredores sobem uma rampa no estilo rally, tiram a foto oficial e de lá saem para a etapa 1. Este ano foi ainda mais especial: logo na largada, os corredores de seis em seis pegavam o teleférico que subia até o ponto onde realmente começavam a correr e contar o tempo da etapa. Muito diferente e emocionante!!!



Acabamos resolvendo subir também o Cerro neste dia, só que por outro teleférico aberto para visitantes. Ao chegar lá em cima, surpresa: pudemos acompanhar os corredores num pedaço do trajeto e ver o que nos esperava: subidas duríssimas e um visual incrível!


Vista do teleférico... Os corredores passavam lá embaixo!

Hora de arrumar as malas do acampamento e mochila de prova com tudo que usaríamos no dia 1, já que a mala de acampamento ia ser transportada e só teríamos acesso a ela no final da etapa. Por essas e por outras o El Cruce exige um planejamento pior do que as provas de triathlon: a duração pode variar muito, você pode se perder e aí acrescentar de minutos a horas no seu tempo, então a alimentação, hidratação tem que ser pensada para isso. Existem elementos obrigatórios pela organização que você deve carregar todos os dias. A maioria para proteger de mudanças do clima e caso você tenha algum imprevisto e precise ficar na montanha esperando resgate... O resgate pode demorar tanto quanto você para chegar no lugar onde chegou! Então não dá para bobear. Planejamos junto com nutricionista a parte de alimentação, sempre extras contados e organizamos tudo certinho. A mala de acampamento foi com saco de dormir, comidinhas para lanches no acampamento, nutrição para outras etapas e roupas. Ainda levamos sempre medicamentos básicos e material para curativos e proteção de bolhas. Uma outra mala ficou no hotel no nosso caso, que era a mala do que não usaríamos na prova e sim após a mesma.

Parte da nutrição levada para a prova... Vale lembrar que isso foi para a dupla e calculamos para sobrar!!!! Ainda levamos sanduíches para ter algo salgado durante a etapa...


No final da tarde, um congresso técnico e confraternização com os corredores da categoria dupla aconteceu. Bom para esclarecer algumas dúvidas, mas serviu mais para aumentar e expectativa para o dia seguinte!!!



Agora era só tentar dormir e esperar o dia clarear...

(continua...)